Dicas de Como Analisar Bem uma Gasometria no Ambiente de UTI

 




Dicas de Como Analisar Bem uma Gasometria no Ambiente de UTI

Introdução

No ambiente da unidade de terapia intensiva (UTI), o exame de Gasometria Arterial — também chamado de “gaso” ou “GA” — é ferramenta essencial para avaliar o equilíbrio ácido-base, a oxigenação e a ventilação de pacientes críticos. Entender não só os valores, mas como interpretar rapidamente os resultados, torna-se diferencial para equipes de fisioterapia, enfermagem e medicina. Neste artigo, você encontrará dicas práticas e embasadas para interpretar uma gasometria de forma eficiente no contexto da UTI.


O que é gasometria e por que ela importa na UTI

A gasometria arterial fornece mensurações como pH, pressão parcial de dióxido de carbono (PaCO₂), pressão parcial de oxigênio (PaO₂), bicarbonato (HCO₃⁻) e outros parâmetros como excesso de base (BE) e saturação de oxi-hemoglobina (SaO₂). RBAC+2Fleury Medicina e Saúde+2
Para pacientes graves — ventilados, hemodinamicamente instáveis, com disfunção orgânica — esse exame orienta decisões como ajustes de ventilação mecânica, oxigenoterapia, suporte metabólico ou intervenções na acidose/alcalose. LabNetwork+1
Por isso, uma interpretação rápida e correta pode significar a diferença entre estabilizar o paciente ou permitir a progressão de falência orgânica.


Valores de referência úteis para a UTI

Ter em mente os valores normais ajuda a dirigir o raciocínio clínico. Alguns valores-referência comuns:

Esses números não são absolutos em pacientes críticos — o contexto importa muito (por exemplo, ventilação mecânica, shunt pulmonar, hipoperfusão) — mas funcionam como “marcos” para o raciocínio de interpretação.


Passo-a-passo de interpretação rápida à beira do leito

Segue uma sequência prática que você pode usar como checklist quando receber o resultado da gasometria:

1. Verifique o pH

  • Se < 7,35 → existe acidose.

  • Se > 7,45 → existe alcalose. Saúde Diagnóstica+1
    Isso já orienta para buscar o “lado” do distúrbio (ácido ou alcalino).

2. Analise o PaCO₂

  • Se PaCO₂ > 45 mmHg → pode indicar acidose respiratória (hipoventilação, retenção de CO₂).

  • Se PaCO₂ < 35 mmHg → pode sugerir alcalose respiratória (hiperventilação, troca gasosa excessiva). Saúde Diagnóstica

3. Verifique o HCO₃⁻ ou BE

  • Se HCO₃⁻ < 22 mEq/L → sugere acidose metabólica (ou compensação respiratória incompleta).

  • Se HCO₃⁻ > 26 mEq/L → sugere alcalose metabólica. Fleury Medicina e Saúde
    O excesso de base (BE) também ajuda a quantificar o grau da alteração metabólica.

4. Identifique se há compensação

  • Em distúrbios metabólicos, espera-se que o sistema respiratório compense (hiper/hipoventilação).

  • Em distúrbios respiratórios, a compensação renal ocorre ao longo do tempo (variação de HCO₃⁻). Saúde Diagnóstica
    Se não houver compensação esperada, considere que pode haver distúrbio misto (respiratório + metabólico).

5. Avalie a oxigenação

  • Verifique PaO₂ e SaO₂: se baixos, há hipoxemia, e isso exige intervenção (ajuste na FiO₂, ventilação mecânica, PEEP).

  • Atenção especial em pacientes com ventilação mecânica, síndrome da angústia respiratória aguda (SARA) ou shunt pulmonares. RBAC+1

6. Relacione com o contexto clínico

  • Paciente ventilado? Quais parâmetros de ventilação (FiO₂, PEEP, modo ventilatório)?

  • Perfusão tecidual está adequada? Existe choque, acidemia láctica, sepse?

  • Qual é o estado metabólico (insuficiência renal, cetoacidose, intoxicações)?
    Esses fatores ajudam a interpretar se o valor alterado é primário ou secundário.


Dicas práticas para atuação de fisioterapeutas em UTI

Como fisioterapeuta (ou membro da equipe multiprofissional de UTI), você pode usar a gasometria como base para intervenção rápida:

  • Ao ajustar ventilação não invasiva ou invasiva: uma PaCO₂ elevada pode indicar hipoventilação ou acúmulo de CO₂ — sugerindo necessidade de reavaliação dos volumes/minuto ou modo ventilatório.

  • Na mobilização precoce: se houver acidose metabólica ou ventilatória, o paciente pode ter limitação para mobilização – ajuste o plano conforme os valores da GA.

  • Na oxigenação: se PaO₂ ou SaO₂ baixos persistirem, considerar revisão de posição (ex: pronação), troca de circuito, ajuste de FiO₂ ou PEEP.

  • Na comunicação com equipe médica/enfermagem: poder relatar “gasometria mostra (…) pH 7,29, PaCO₂ 55 mmHg, HCO₃⁻ 24 mEq/L — hipoventilação grave, podemos revisar ventilação” torna você parte ativa da tomada de decisão.

  • Verifique qualidade da amostra: bolhas de ar, atraso na análise, transporte inadequado podem falsificar resultados — esteja atento. Secad


Erros comuns e como evitá-los

  • Bolhas na seringa ou amostra mal homogeneizada → podem alterar PaO₂/PaCO₂. Secad

  • Atraso na análise → idealmente análise imediata ou dentro de 10-15 min, senão metabólitos alteram os valores. Secad+1

  • Coleta em veia em vez de artéria → valores mudam e interpretação fica inválida. Fleury Medicina e Saúde

  • Ignorar o contexto clínico → gasometria isolada não substitui exame clínico.

  • Focar apenas em um valor → interpretar apenas o pH ou PaCO₂ sem avaliar HCO₃⁻ ou compensação leva a erros.


Casos rápidos de interpretação (exemplos práticos)

Caso A: pH 7,30 | PaCO₂ 50 mmHg | HCO₃⁻ 24 mEq/L
→ pH baixo (acidose) + PaCO₂ alto → acidose respiratória aguda (Hipoventilação).
Caso B: pH 7,48 | PaCO₂ 30 mmHg | HCO₃⁻ 22 mEq/L
→ pH alto (alcalose) + PaCO₂ baixo → alcalose respiratória (Hiperventilação).
Caso C: pH 7,20 | PaCO₂ 35 mmHg | HCO₃⁻ 15 mEq/L
→ pH baixo + HCO₃⁻ muito baixo → acidose metabólica (com provável compensação).
Esses raciocínios rápidos ajudam no ambiente da UTI, mas sempre correlacione com a clínica.


Conclusão

A gasometria arterial é uma ferramenta poderosa no cuidado intensivo. Saber interpretar rapidamente — seguindo o passo a passo: pH → PaCO₂ → HCO₃⁻ → compensação → oxigenação → contexto clínico — torna você um profissional mais seguro e eficaz.
Seja fisioterapeuta, enfermeiro ou médico de UTI, dominar essa interpretação melhora a comunicação inter-profissional, acelera as decisões clínicas e, acima de tudo, promove melhores resultados para o paciente crítico.

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